Dizer "não" para um pedido, discordar de uma opinião ou pedir que um combinado seja respeitado parece simples, mas para muitas pessoas é uma das tarefas mais desconfortáveis do dia a dia. A dificuldade de expressar necessidades e limites sem se sentir culpado, e sem recorrer a explosões de raiva ou ao silêncio resignado, é um tema recorrente nos consultórios de psicologia. A esse equilíbrio entre respeitar a si mesmo e respeitar o outro, a psicologia dá o nome de assertividade.
Este texto tem caráter educativo e apresenta informações gerais sobre comunicação assertiva. Ele não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento realizado por um profissional de psicologia, que pode considerar a história e o contexto específico de cada pessoa.
O que é assertividade
A assertividade pode ser descrita como a capacidade de expressar pensamentos, sentimentos, opiniões e necessidades de forma clara e direta, defendendo os próprios direitos sem violar os direitos dos outros. O dicionário de psicologia da American Psychological Association (APA) descreve o treinamento de assertividade como uma abordagem voltada a ensinar as pessoas a se posicionarem de maneira firme, honesta e socialmente apropriada, em contraste com padrões de comportamento excessivamente passivos ou agressivos.
Na prática, ser assertivo não significa "impor" a própria vontade nem "vencer" uma discussão. Significa comunicar de forma transparente o que se pensa e o que se precisa, ao mesmo tempo em que se reconhece que a outra pessoa também tem opiniões, sentimentos e limites legítimos.
Passivo, agressivo e assertivo: três estilos de comunicação
Materiais acadêmicos de comunicação interpessoal costumam descrever um espectro com três estilos principais, úteis para entender onde cada pessoa tende a se posicionar em diferentes situações.
Comunicação passiva
No estilo passivo, a pessoa tende a colocar as necessidades e opiniões dos outros à frente das próprias, evitando conflitos mesmo quando isso significa abrir mão do que sente ou pensa. Isso costuma se manifestar em um tom de voz baixo, postura retraída e dificuldade em dizer "não". Com o tempo, esse padrão pode estar associado a sentimentos de frustração, ressentimento acumulado e queda na autoestima, já que a mensagem implícita é a de que os próprios sentimentos "não contam tanto".
Comunicação agressiva
No estilo agressivo, a pessoa expressa suas necessidades e opiniões de forma que desrespeita os direitos do outro, muitas vezes por meio de tom de voz elevado, postura de confronto, interrupções ou desqualificação do que a outra pessoa sente. Esse padrão pode até gerar sensação momentânea de controle, mas tende a comprometer relações e gerar afastamento, medo ou ressentimento em quem está do outro lado.
Comunicação assertiva
A comunicação assertiva ocupa uma posição intermediária: a pessoa defende suas próprias necessidades e opiniões, mas o faz reconhecendo e respeitando as necessidades do outro. Costuma envolver contato visual direto, tom de voz firme (mas não elevado) e uso de linguagem clara, sem rodeios nem ataques pessoais. O resultado tende a ser uma comunicação mais honesta, com menor acúmulo de ressentimentos de ambos os lados.
O que a pesquisa mostra sobre a assertividade
A assertividade é estudada há décadas dentro da psicologia comportamental, e parte dessa pesquisa mais recente ajuda a entender por que ela é considerada uma habilidade relevante para o bem-estar emocional.
Uma meta-análise publicada em 2026 na revista International Journal of Applied Positive Psychology, reunindo doze ensaios clínicos randomizados com mais de 500 participantes, encontrou um efeito de magnitude moderada do treinamento de assertividade na redução de sintomas de ansiedade social em comparação a grupos-controle. Os autores descrevem o treinamento de assertividade como uma abordagem voltada ao desenvolvimento de habilidades interpessoais, e não apenas à redução de sintomas, o que pode torná-la mais acessível para pessoas que hesitam em buscar uma psicoterapia tradicional.
Um estudo publicado na Iranian Red Crescent Medical Journal (2016), conduzido com estudantes do ensino médio, comparou um grupo que participou de oito sessões de treinamento de assertividade a um grupo-controle e observou redução significativa nos níveis de estresse e ansiedade avaliados por escalas padronizadas após a intervenção, com os autores descrevendo a abordagem como de baixo custo e segurança para uso com adolescentes.
Já uma pesquisa publicada em 2025 na JMIR Formative Research, com estudantes de medicina, identificou uma correlação negativa relevante entre níveis de assertividade e níveis de ansiedade medidos por escalas validadas: quanto maiores os escores de assertividade, menores tendiam a ser os escores de ansiedade relatados pelos participantes. Os próprios autores destacam que se trata de um estudo com amostra pequena e limitado a uma única instituição, o que limita a generalização dos resultados.
Em conjunto, essas pesquisas sugerem uma associação entre maior assertividade e menores níveis de sintomas de ansiedade e estresse em determinados grupos estudados, sem que isso represente uma garantia de resultado individual, já que cada pessoa reage de forma diferente a qualquer tipo de intervenção.
Práticas gerais para desenvolver a comunicação assertiva
A assertividade costuma ser tratada, na psicologia, como uma habilidade que pode ser exercitada e desenvolvida ao longo do tempo, e não como um traço fixo de personalidade. Algumas práticas frequentemente descritas em materiais educativos sobre o tema incluem:
- Usar mensagens na primeira pessoa: descrever o próprio sentimento ou necessidade ("eu me sinto sobrecarregado quando...") em vez de partir para acusações ("você sempre...").
- Ser específico e claro: descrever a situação concreta e o que se espera, evitando generalizações e rodeios que dificultam o entendimento do outro.
- Cuidar da comunicação não verbal: manter tom de voz firme, postura ereta e contato visual, sem que isso se transforme em confronto.
- Validar o ponto de vista do outro: reconhecer que a outra pessoa também tem uma perspectiva legítima ajuda a manter o diálogo respeitoso, mesmo em divergências.
- Praticar em situações de menor risco: exercitar pedidos simples e recusas em contextos cotidianos antes de aplicar a habilidade em situações mais desafiadoras.
- Tolerar o desconforto inicial: sentir-se estranho ou ansioso ao ser mais direto é comum no início do processo de mudança de um padrão de comunicação mais arraigado.
Vale reforçar que essas práticas são orientações gerais, e não um protocolo padronizado que funcione da mesma forma para todas as pessoas, contextos culturais ou relações interpessoais.
Quando buscar apoio de um psicólogo
Para algumas pessoas, dificuldades persistentes em se expressar de forma assertiva estão relacionadas a padrões mais amplos de ansiedade social, baixa autoestima, histórico de relações abusivas ou dificuldade em lidar com conflitos, entre outros fatores que variam de pessoa para pessoa. Quando a dificuldade de comunicação gera sofrimento significativo, prejudica relações importantes ou o desempenho no trabalho e nos estudos, ou vem acompanhada de sintomas de ansiedade ou humor que persistem no tempo, pode ser indicado buscar avaliação de um psicólogo.
Um profissional de psicologia pode investigar, de forma individualizada, os fatores envolvidos em cada caso e indicar, quando apropriado, abordagens terapêuticas baseadas em evidências para o desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação. Este artigo não tem finalidade diagnóstica nem substitui uma avaliação profissional, e as informações aqui apresentadas são de caráter geral e educativo.








