O diabetes mellitus gestacional (DMG) é uma alteração na tolerância à glicose identificada pela primeira vez durante a gravidez, que na maioria dos casos não estava presente antes da gestação. Diferente do diabetes tipo 2, que costuma se desenvolver ao longo de anos e persistir após o diagnóstico, o DMG está diretamente relacionado às mudanças hormonais e metabólicas próprias da gravidez e, na maior parte das vezes, se resolve após o parto. Ainda assim, ele exige atenção específica durante o pré-natal, porque pode afetar tanto a saúde da gestante quanto o desenvolvimento do bebê.
O que diferencia o diabetes gestacional
Durante a gravidez, hormônios produzidos pela placenta aumentam naturalmente a resistência à insulina, principalmente a partir do segundo trimestre. Em algumas gestantes, o pâncreas não consegue produzir insulina suficiente para compensar essa resistência, e os níveis de glicose no sangue sobem além do esperado. Esse quadro é classificado como DMG quando a hiperglicemia é identificada a partir da metade da gestação; quando a alteração já aparece no início da gravidez, com valores muito elevados, pode indicar diabetes prévio ainda não diagnosticado, conduzido de forma diferente pela equipe de saúde.
Quando o rastreamento é realizado
Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o rastreamento do diabetes na gestação segue duas etapas. Na primeira consulta de pré-natal, é solicitada a glicemia de jejum, com o objetivo de identificar diabetes que já existia antes da gravidez, mas ainda não havia sido diagnosticado. Entre a 24ª e a 28ª semana, recomenda-se a realização do teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com 75 g de glicose para todas as gestantes sem diagnóstico prévio de diabetes, independentemente da presença de fatores de risco. Gestantes que iniciam o pré-natal mais tardiamente podem realizar o teste em outro momento, conforme orientação da equipe responsável pelo acompanhamento.
No TOTG, são avaliadas três medidas de glicemia: em jejum, uma hora e duas horas após a ingestão da solução de glicose. De acordo com os critérios adotados no Brasil, o diagnóstico de DMG é confirmado quando pelo menos um dos seguintes valores está alterado: glicemia de jejum entre 92 e 125 mg/dL, glicemia de uma hora igual ou superior a 180 mg/dL, ou glicemia de duas horas entre 153 e 199 mg/dL. Valores de jejum iguais ou superiores a 126 mg/dL, ou de duas horas iguais ou superiores a 200 mg/dL, sugerem diabetes diagnosticado durante a gestação, condição conduzida de forma semelhante ao diabetes fora da gravidez.
Fatores de risco associados
Embora o rastreamento seja recomendado para todas as gestantes, alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolver DMG, entre eles:
Idade materna mais avançada;
Sobrepeso ou obesidade antes da gravidez;
Ganho de peso acima do recomendado durante a gestação;
Histórico familiar de diabetes;
Diagnóstico de diabetes gestacional em gravidez anterior;
Síndrome dos ovários policísticos;
Hemoglobina glicada elevada no início da gravidez.
A presença desses fatores reforça a importância do acompanhamento pré-natal regular, mas não substitui a realização dos exames de rastreamento recomendados, já que o DMG também pode ocorrer em gestantes sem nenhum fator de risco identificável.
Por que o controle da glicemia importa
A Organização Mundial da Saúde publicou, no fim de 2025, sua primeira diretriz específica sobre diabetes na gravidez, reunindo recomendações sobre prevenção, rastreamento e tratamento. O documento destaca que a exposição do feto a níveis elevados de glicose materna está associada a crescimento fetal excessivo, maior risco de complicações no parto, hipoglicemia neonatal, desconforto respiratório do recém-nascido e alterações metabólicas que podem aumentar o risco de obesidade, síndrome metabólica e diabetes tipo 2 ao longo da vida da criança. Por isso, o acompanhamento e o controle glicêmico adequado ao longo da gestação fazem parte do cuidado pré-natal recomendado quando o diagnóstico de DMG é confirmado.
Cuidados recomendados durante a gravidez
Após o diagnóstico, o acompanhamento do DMG costuma envolver três pilares: orientação nutricional, prática de atividade física compatível com a gestação e monitoramento da glicemia capilar, sempre definidos em conjunto com a equipe de saúde responsável pelo pré-natal. A diretriz da SBD indica, como parâmetros gerais de controle, glicemia de jejum entre 65 e 95 mg/dL, glicemia uma hora após as refeições abaixo de 140 mg/dL e duas horas após as refeições abaixo de 120 mg/dL — valores que podem ser ajustados pela equipe médica conforme a avaliação de cada gestante.
O monitoramento da glicemia capilar costuma ser feito várias vezes ao dia, geralmente em jejum e após as principais refeições, e a frequência pode ser ampliada quando há necessidade de uso de medicação. Quando as mudanças em alimentação e atividade física não são suficientes para manter a glicemia dentro das metas estabelecidas, a equipe de saúde pode indicar tratamento farmacológico, incluindo insulina, sempre de forma individualizada e sob supervisão médica.
A orientação nutricional é recomendada preferencialmente com acompanhamento de nutricionista, e a prática de exercícios físicos deve ser avaliada e liberada pelo obstetra responsável, considerando as condições específicas de cada gestação.
Acompanhamento após o parto
Na maioria dos casos, a glicemia se normaliza após o parto, já que o principal fator desencadeante as alterações hormonais da gravidez deixa de estar presente. Ainda assim, mulheres que tiveram DMG apresentam risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 ao longo da vida. Por isso, recomenda-se a repetição do teste oral de tolerância à glicose entre quatro e seis semanas após o parto, com reavaliações periódicas nos anos seguintes, conforme orientação médica.
O diabetes gestacional é uma condição específica da gravidez, com rastreamento definido, critérios diagnósticos próprios e manejo que costuma ser conduzido em conjunto por obstetra, endocrinologista e nutricionista. As informações apresentadas aqui têm caráter educativo e geral; o diagnóstico, a interpretação de exames e a definição da conduta mais adequada para cada gestação devem sempre ser feitos por profissionais de saúde durante o acompanhamento pré-natal.


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