Delirium em idosos: confusão mental aguda e quando é urgência médica
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Delirium em idosos: confusão mental aguda e quando é urgência médica

Delirium é uma confusão mental aguda, comum em idosos hospitalizados e muitas vezes reversível, mas diferente de demência e de psicose. Entenda os sinais que indicam necessidade de atendimento médico urgente.

Dr. Bruno Hees Toews· CRM-SP 167551
27 de agosto de 20266 min de leitura

A confusão mental que surge de forma repentina em uma pessoa idosa especialmente durante uma internação hospitalar não deve ser interpretada apenas como "coisa da idade" ou piora natural da memória. Esse quadro tem nome: delirium. Trata-se de uma síndrome médica aguda, frequentemente reversível quando identificada e tratada a tempo, mas que também pode sinalizar uma condição clínica grave em curso. Reconhecer suas características é importante tanto para familiares quanto para equipes de cuidado, porque, em muitas situações, o delirium representa uma urgência médica.

O que é o delirium

Delirium é definido como uma perturbação aguda da atenção e da consciência, acompanhada de alterações cognitivas adicionais, que se desenvolve em um curto período de tempo geralmente horas a poucos dias e tende a flutuar ao longo do dia. Segundo revisão publicada na American Family Physician, esse quadro decorre de uma consequência fisiológica direta de outra condição médica, do uso ou abstinência de substâncias, ou de efeito de medicamentos, e não constitui um transtorno psiquiátrico primário.

A pessoa pode apresentar dificuldade em manter o foco da atenção, desorientação quanto a tempo e espaço, alterações de linguagem, alucinações ou interpretações equivocadas da realidade, e oscilações entre agitação e sonolência excessiva. Existem formas hiperativas (mais agitadas), hipoativas (mais sonolentas e caladas, com maior risco de passar despercebidas) e formas mistas.

Delirium não é a mesma coisa que demência

É comum a confusão entre delirium e demência, mas são quadros distintos, embora possam coexistir ter demência é, inclusive, um dos principais fatores que aumentam a vulnerabilidade ao delirium. Enquanto a demência costuma se instalar de forma lenta e progressiva, ao longo de meses ou anos, com relativa estabilidade dentro de um mesmo dia, o delirium surge de modo súbito, representa uma mudança clara em relação ao estado mental habitual da pessoa e tende a variar de intensidade em poucas horas.

O delirium também não deve ser confundido com quadros psicóticos primários. Embora alucinações e ideias equivocadas possam aparecer em ambos, no delirium elas ocorrem no contexto de uma alteração aguda da consciência e da atenção associada a uma causa médica identificável, enquanto psicoses primárias em geral cursam sem esse rebaixamento flutuante do nível de consciência. Essa diferenciação é feita pela equipe médica, com base em avaliação clínica, histórico e, quando necessário, exames complementares.

Por que o delirium acontece

O delirium tende a surgir da combinação entre uma vulnerabilidade prévia (fatores predisponentes) e um evento desencadeante agudo (fatores precipitantes). Entre os fatores que aumentam a vulnerabilidade estão idade avançada, demência ou outro comprometimento cognitivo prévio, déficits sensoriais de visão e audição, múltiplas doenças crônicas e uso de vários medicamentos simultâneos.

Já entre os fatores que costumam desencadear uma crise estão infecções como infecção urinária ou pneumonia, que em idosos podem cursar sem febre evidente ,desidratação e distúrbios eletrolíticos, uso de determinados medicamentos, dor mal controlada, privação de sono, imobilidade prolongada, cirurgias e anestesia, e a própria mudança de ambiente que uma internação hospitalar representa.

Quando o delirium é uma urgência médica

Uma mudança aguda e fora do padrão habitual no nível de consciência, na atenção ou no comportamento de uma pessoa idosa é, por si só, motivo para buscar avaliação médica o quanto antes não é algo para simplesmente esperar passar. Alguns sinais reforçam a necessidade de atendimento imediato, em pronto-socorro ou emergência:

  • Confusão mental de início súbito (horas a dias), diferente do funcionamento habitual da pessoa;

  • Flutuação do nível de consciência ao longo do dia, com períodos de maior lucidez e outros de maior desorientação;

  • Dificuldade acentuada de manter a atenção em uma conversa;

  • Sonolência excessiva incomum ou, no extremo oposto, agitação e inquietação fora do padrão da pessoa;

  • Alucinações ou falas desconexas que não existiam antes;

  • Sinais físicos associados, como febre, queda recente, dificuldade para respirar, redução da diurese ou dor intensa.

Esses sinais indicam que pode haver uma causa clínica ativa por trás do quadro — como uma infecção, um desequilíbrio metabólico ou uma reação a medicamento que precisa ser identificada e tratada rapidamente. Quanto mais cedo o delirium é reconhecido e sua causa é investigada, maiores tendem a ser as chances de reversão do quadro. Por isso, diante de confusão mental aguda em uma pessoa idosa, a orientação geral é procurar avaliação médica em caráter de urgência, em vez de aguardar para ver se o quadro melhora sozinho.

Como é feita a avaliação

Não existe um exame único capaz de, isoladamente, confirmar delirium: a avaliação é clínica, combinando entrevista com o paciente e com familiares ou cuidadores que ajudam a esclarecer qual era o estado mental habitual da pessoa exame físico e, geralmente, exames laboratoriais e de imagem para investigar a causa de base, já que o delirium é, antes de tudo, um sinal de que algo mais está acontecendo no organismo. Profissionais de saúde utilizam ferramentas de rastreio padronizadas para apoiar essa identificação, especialmente porque a forma hipoativa do delirium, mais silenciosa, costuma passar despercebida com maior frequência.

Prevenção e cuidado

Revisões sistemáticas da Cochrane Library sobre prevenção de delirium em pacientes hospitalizados fora de unidades de terapia intensiva indicam que intervenções não farmacológicas multicomponentes que combinam medidas como orientação frequente quanto a tempo e espaço, manutenção do ciclo sono-vigília, mobilização precoce, correção de déficits visuais e auditivos, controle da dor e prevenção da desidratação estiveram associadas a redução na incidência de delirium em ambiente hospitalar. Já o uso de medicamentos com finalidade preventiva, incluindo antipsicóticos, não mostrou, segundo essas revisões, evidência consistente de benefício; a indicação de qualquer medicação cabe exclusivamente à avaliação médica individualizada.

Para familiares e cuidadores, medidas simples de apoio no ambiente hospitalar ou domiciliar manter objetos familiares por perto, garantir o uso de óculos e aparelhos auditivos, favorecer boa hidratação e sono adequado, e manter presença e orientação constantes podem contribuir para o conforto da pessoa idosa, mas não substituem a investigação médica da causa do delirium.

O delirium costuma ser um quadro potencialmente reversível quando sua causa é identificada e tratada, e o tempo de reconhecimento faz diferença. Este conteúdo tem caráter educativo e informativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento realizados por profissional de saúde habilitado. Diante de confusão mental aguda em uma pessoa idosa, especialmente quando acompanhada de outros sinais de alerta, a recomendação é buscar atendimento médico de urgência.

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